22.6.10
19.6.10
"Na verdade, são poucos os que sabem da existência de um pequeno cérebro em cada um dos dedos da mão, algures entre a falange, a falanginha e a falangeta. Aquele outro órgão a que chamamos cérebro, esse com que viemos ao mundo, esse que transportamos dentro do crânio e que nos transporta a nós para que o transportemos a ele, nunca conseguiu produzir senão intenções vagas, gerais, difusas, e sobretudo pouco variadas, acerca do que as mãos e os dedos deverão fazer. Por exemplo, se ao cérebro da cabeça lhe ocorreu a ideia de uma pintura, ou música, ou escultura, ou literatura, ou boneco de barro, o que ele faz é manifestar o desejo e ficar depois à espera, a ver o que acontece. Só porque despachou uma ordem às mãos e aos dedos, crê, ou finge crer, que isso era tudo quanto se necessitava para que o trabalho, após umas quantas operações executadas pelas extremidades dos braços, aparecesse feito. Nunca teve a curiosidade de se perguntar por que razão o resultado final dessa manipulação, sempre complexa até nas suas mais simples expressões, se assemelha tão pouco ao que havia imaginado antes de dar instruções às mãos. Note-se que, ao nascermos, os dedos ainda não têm cérebros, vão-nos formando pouco a pouco com o passar do tempo e o auxilio do que os olhos vêem. O auxilio dos olhos é importante, tanto quanto o auxílio daquilo que por eles é visto. Por isso o que os dedos sempre souberam fazer de melhor foi precisamente revelar o oculto. O que no cérebro possa ser percebido como conhecimento infuso, mágico ou sobrenatural, seja o que for que signifiquem sobrenatural, mágico e infuso, foram os dedos e os seus pequenos cérebros que lho ensinaram. Para que o cérebro da cabeça soubesse o que era a pedra, foi preciso primeiro que os dedos a tocassem, lhe sentissem a aspereza, o peso e a densidade, foi preciso que se ferissem nela. Só muito tempo depois o cérebro compreendeu que daquele pedaço de rocha se poderia fazer uma coisa a que chamaria faca e uma coisa a que chamaria ídolo. O cérebro da cabeça andou toda a vida atrasado em relação às mãos, e mesmo nestes tempos, quando nos parece que passou à frente delas, ainda são os dedos que têm de lhe explicar as investigações do tacto, o estremecimento da epiderme ao tocar o barro, a dilaceração aguda do cinzel, a mordedura do ácido na chapa, a vibração subtil de uma folha de papel estendida, a orografia das texturas, o entramado das fibras, o abecedário em relevo do mundo. E as cores. Manda a verdade que se diga que o cérebro é muito menos entendido em cores do que crê. É certo que consegue ver mais ou menos claramente visto o que os olhos lhe mostram, mas as mais das vezes sofre do que poderíamos designar por problemas de orientação sempre que chega a hora de converter em conhecimento o que viu. Graças à inconsciente segurança com que a duração da vida acabou por dotá-lo, pronuncia sem hesitar os nomes das cores a que cha ma elementares e complementárias, mas imediatamente se perde, perplexo, duvidoso, quando tenta formar palavras que possam servir de rótulos ou dísticos explicativos de algo que toca o inefável, de algo que roça o indizível, aquela cor ainda de todo não nascida que, com o assentimento, a cumplicidade, e não raro a surpresa dos próprios olhos, as mãos e os de dos vão criando e que provavelmente nunca chegará a receber o seu justo nome. Ou talvez já o tenha, mas esse só as mãos o conhecem, porque compuseram a tinta como se estivessem a decompor as partes constituintes de uma nota de música, porque se sujaram na sua cor e guardaram a mancha no interior profundo da derme, porque só com esse saber invisível dos dedos se poderá alguma vez pintar a infinita tela dos sonhos. Fiado do que os olhos julgaram ter visto, o cérebro da cabeça afirma que, segundo a luz e as sombras, o vento e a calma, a humidade e a secura, a praia é branca, ou amarela, ou dourada, ou cinzenta, ou roxa, ou qualquer coisa entre isto e aquilo, mas depois vêm os dedos e, com um movimento de recolha, como se estivessem a ceifar uma seara, levantam do chão todas as cores que há no mundo. O que parecia único era plural, o que é plural sê-lo-á ainda mais. Não é menos verdade, contudo, que na fulguração exaltada de um só tom, ou na sua musical modulação, estão presentes e vivos todos os outros, tanto os das cores que já têm nome como os das que ainda o esperam, do mesmo modo que uma extensão de aparência lisa poderá estar cobrindo, ao mesmo tempo que os manifesta, os rastos de todo o vivido e acontecido na história do mundo. Toda a arqueologia de materiais é uma arqueologia humana. O que este barro esconde e mostra é o trânsito do ser no tempo e a sua passagem pelos espaços, os sinais dos dedos, as raspaduras das unhas, as cinzas e os tições das fogueiras apagadas, os ossos próprios e alheios, os caminhos que eternamente se bifurcam e se vão distanciando e perdendo uns dos outros. Este grão que aflora à superfície é uma memória, esta depressão a marca que ficou de um corpo deitado. O cérebro perguntou e pediu, a mão respondeu e fez. Marta disse-o de outra maneira, Já lhe apanhou o jeito."
"(...) ao homem não é dado escolher o lugar onde há-de morrer, salvo se é ele a escolher a própria morte, mas porque sinto a falta do rio da minha terra, bem sei que água tem-na o mar de sobra, vê-se daqui, mas digam-me o que pode um homem fazer daquela imensidão, sempre a onda a marrar nas pedras, sempre a bater na areia, ao passo que o rio corre entre duas margens, é como uma procissão penitente, ele é que vai rasteirinho, e nós, de pé, olhando, somos como os freixos e os choupos, e quando um homem quer ver como está a sua cara, se envelheceu muito, a água é o espelho que passa e está parado, e nós que estamos parados é que vamos passando (...)"
18.6.10
"Por um instante a morte soltou-se a si mesma, expandindo-se até às paredes, encheu o quarto todo e alongou-se como um fluido até à sala contígua, aí uma parte de si deteve-se a olhar o caderno que estava aberto sobre uma cadeira, era a suite número seis opus mil e doze em ré maior de johann sebastian bach composta em cöthen e não precisou de ter aprendido música para saber que ela havia sido escrita, como a nona sinfonia de beethoven, na tonalidade da alegria, da unidade entre os homens, da amizade e do amor. Então aconteceu algo nunca visto, algo não imaginável, a morte deixou-se cair de joelhos, era toda ela, agora, um corpo refeito, e por isso é que tinha joelhos, e pernas, e pés, e braços, e mãos, e uma cara que entre as mãos escondia, e uns ombros que tremiam não se sabe porquê, chorar não será, não se pode pedir tanto a quem sempre deixa um rasto de lágrimas por onde passa, mas nenhuma delas que seja sua. Assim como estava, nem visível nem invisível, em esqueleto nem mulher, levantou-se do chão como um sopro e entrou no quarto."
12.6.10
"E se realmente gostarem? Se o toque do outro de repente for bom? Bom, a palavra é essa. Se o outro for bom para você. Se te der vontade de viver. Se o cheiro do suor do outro também for bom. Se todos os cheiros do corpo do outro forem bons. O pé, no fim do dia. A boca, de manhã cedo. Bons, normais, comuns. Coisa de gente. Cheiros íntimos, secretos. Ninguém mais saberia deles se não enfiasse o nariz lá dentro, a língua lá dentro, bem dentro, no fundo das carnes, no meio dos cheiros. E se tudo isso que você acha nojento for exatamente o que chamam de amor? Quando você chega no mais íntimo, No tão íntimo, mas tão íntimo que de repente a palavra nojo não tem mais sentido. Você também tem cheiros. As pessoas têm cheiros, é natural. Os animais cheiram uns aos outros. No rabo. O que é que você queria? Rendas brancas imaculadas? Será que amor não começa quando nojo, higiene ou qualquer outra dessas palavrinhas, desculpe, você vai rir, qualquer uma dessas palavrinhas burguesas e cristãs não tiver mais nenhum sentido? Se tudo isso, se tocar no outro, se não só tolerar e aceitar a merda do outro, mas não dar importância a ela ou até gostar, porque de repente você até pode gostar, sem que isso seja necessariamente uma perversão, se tudo isso for o que chamam de amor. Amor no sentido de intimidade, de conhecimento muito, muito fundo. Da pobreza e também da nobreza do corpo do outro. Do teu próprio corpo que é igual, talvez tragicamente igual. O amor só acontece quando uma pessoa aceita que também é bicho. Se amor for a coragem de ser bicho. Se amor for a coragem da própria merda. E depois, um instante mais tarde, isso nem sequer será coragem nenhuma, porque deixou de ter importância. O que vale é ter conhecido o corpo de outra pessoa tão intimamente como você só conhece o seu próprio corpo. Porque então você se ama também."
"Fico tão cansada às vezes, e digo pra mim mesma que está errado, que não é assim, que não é este o tempo, que não é este o lugar, que não é esta a vida. E fumo, e fico horas sem pensar absolutamente nada: (...)
Claro, é preciso julgar a si próprio com o máximo de rigidez, mas não sei se você concorda, as coisas por natureza já são tão duras para mim que não me acho no direito de endurecê-las ainda mais."
Claro, é preciso julgar a si próprio com o máximo de rigidez, mas não sei se você concorda, as coisas por natureza já são tão duras para mim que não me acho no direito de endurecê-las ainda mais."
9.6.10
2.6.10
25.5.10
24.5.10
18.5.10
17.5.10
"O amor, o sono, as drogas e intoxicantes, são formas elementares da arte, ou, antes, de produzir o mesmo efeito que ela. Mas amor, sono e drogas têm cada um a sua desilusão. O amor farta ou desilude. Do sono desperta-se, e, quando se dormiu, não se viveu. As drogas pagam-se com a ruína de aquele mesmo físico que serviram de estimular. Mas na arte não há desilusão porque a ilusão foi admitida desde o princípio. Da arte não há despertar, porque nela não dormimos, embora sonhássemos. Na arte não há tributo ou multa que paguemos por ter gozado dela."
"Tô exausto de construir e demolir fantasias. Não quero me encantar com ninguém."
a casualidade não se louva, através da pele degenera-se a intimidade em poucas horas.
a honestidade vira uma arma carregada e apontada para o próprio rosto.
expondo os muros internos, nos tornamos alvos facéis ao outro. o que assusta não é a velocidade, e sim, o temor de lidar com a falta de disfarces alheia. certas pessoas não suportam, sucubem em suas próprias incapacidades e justificam-se com fugazes defesas. o abandono torna-se o escape de egos não preparados para o que não reside na superfície.
(o sublime do que haveria de vir torna-se um vácuo de possibilidades mortas)
14.5.10
"An artist never works under ideal conditions. If they existed, his work wouldn't exist, for the artist doesn't live in a vacuum. Some sort of pressure must exist. The artist exists because the world is not perfect. Art would be useless if the world were perfect, as man wouldn't look for harmony but would simply live in it. Art is born out of an ill-designed world."
11.5.10
no bom e velho idioma: i won't change who i am just to please others.
"(...) The nice guy personality is usually developed at a young age and is probably shaped by the guy's parents. For example, he found some men with the nice guy persona were heavily influenced by their mothers. Other men were trying to avoid a macho-male personality or philandering behavior displayed by the father.
(...)
Despite this attitude, some dating coaches say that women should keep an open mind. The negative stereotypes of a nice guy aren't always true; the men aren't always timid or easy pushovers. While the nice guys may not be as forward or loud, their selfless personality can be valuable to a lasting relationship, they say.
(....)
Sometimes, all it takes is for the girl to give the nice guy a chance."
8.5.10
3.5.10
1.5.10
"Você não existe. Eu não existo. Mas estou tão poderoso na minha sede que inventei a você para matar a minha sede imensa. Você está tão forte na sua fragilidade que inventou a mim para matar a sua sede exata. Nós nos inventamos um ao outro porque éramos tudo o que precisávamos para continuar vivendo. E porque nos inventamos um ao outro, porque éramos tudo o que precisávamos, para continuar vivendo. E porque nos inventamos, eu te confiro poder sobre o meu destino e você me confere poder sobre o teu destino. Você me dá seu futuro, eu te ofereço meu passado. Então e assim, somos presente, passado e futuro. Tempo infinito num só, esse é o eterno."
30.4.10
"Metropolis by day and night, a surreal city lived-in by surreal people…More than showing the chaos of the metropolis this project focuses on single souls, walking down the streets, anonymous bodies, like ghosts in a ghost town…like the feeling that I have when I’m walking down the streets of a big metropolis like New York even if it’s full of people…"
28.4.10
27.4.10
"It's an idea, someday
in my tears, my dreams
don't you want to see her proof?
Life that comes of no harm
you and I, you and I and dominoes, the day goes by...
You and I in place
wasting time on dominoes
a day so dark, so warm
life that comes of no harm
you and I and dominoes, time goes by...
Fireworks and heat, someday
hold a shell, a stick or play
overheard a lark today
losing when my mind's astray
don't you want to know with your pretty hair
stretch your hand, glad feel,
in an echo for your way.
It's an idea, someday..."
teorizo, teorizo ao limite.
e num dia e numa hora que menos esperava, todo o meu racional é consumido por uma desconhecida que vira um eco na minha mente.
in my tears, my dreams
don't you want to see her proof?
Life that comes of no harm
you and I, you and I and dominoes, the day goes by...
You and I in place
wasting time on dominoes
a day so dark, so warm
life that comes of no harm
you and I and dominoes, time goes by...
Fireworks and heat, someday
hold a shell, a stick or play
overheard a lark today
losing when my mind's astray
don't you want to know with your pretty hair
stretch your hand, glad feel,
in an echo for your way.
It's an idea, someday..."
teorizo, teorizo ao limite.
e num dia e numa hora que menos esperava, todo o meu racional é consumido por uma desconhecida que vira um eco na minha mente.
(por uma constante possibilidade de cumplicidade)
24.4.10
22.4.10
20.4.10
19.4.10
"to all chances never seized
untaken opportunities,
to all the paths i didn't take
and all the plans i never made.
(...)
to all the risks i was too scared
and all the love i never dared
to all the friends i never had
and all the things i never said
to all the hands i never held
and every feeling left unfelt
to all the words i didn't hear
to all my loneliness and fear
to all the tears i never cried
to every dream that slowly died
to all sunsets i missed out
to everything i lived without
to life, to love, to luck, to fate,
i won't regret, it's not too late."
untaken opportunities,
to all the paths i didn't take
and all the plans i never made.
(...)
to all the risks i was too scared
and all the love i never dared
to all the friends i never had
and all the things i never said
to all the hands i never held
and every feeling left unfelt
to all the words i didn't hear
to all my loneliness and fear
to all the tears i never cried
to every dream that slowly died
to all sunsets i missed out
to everything i lived without
to life, to love, to luck, to fate,
i won't regret, it's not too late."
18.4.10
quando a mídia quer, ela é impetuosa e cruel, ao extremo. ela distorce a comunicação em algo discriminatório e falacioso. alguns palhaços fazem mal uso do fotojornalismo para garantir o sustenso próprio porque estão sendo pagos para denunciar uma festa. enquanto nos arredores da festa, deveriam realmente estar denunciando uma são paulo suja e excludente.
15.4.10
"Chegar ao centro, sem partir-se em mil fragmentos pelo caminho. Completo, total. Sem deixar pedaço algum para trás."
do meu rotineiro embate entre um sol em aquário e uma lua em leão, e toda confusão emocional que traz consigo, a segunda opção deve falar mais alto. um pouco de amor-próprio e aceitação das próprias peculiaridades. carregada de um certo orgulho até.
(saturado do estado de incapaz)
do meu rotineiro embate entre um sol em aquário e uma lua em leão, e toda confusão emocional que traz consigo, a segunda opção deve falar mais alto. um pouco de amor-próprio e aceitação das próprias peculiaridades. carregada de um certo orgulho até.
(saturado do estado de incapaz)
14.4.10
12.4.10
9.4.10
7.4.10
5.4.10
3.4.10
31.3.10
"I like really old films. You can really see what the world looked like, thirty, fifty, a hundred years ago. You know the clothes, the telephones, the trains, the way people smoked cigarettes, the little details of life. The best films are like dreams you're never sure you've really had. I have this image in my head of a room full of sand. And a bird flies towards me, and dips its wing into the sand. And I honestly have no idea whether this image came from a dream, or a film. Sometimes I like it in films when people just sit there, not saying anything."
27.3.10
"Esse era o meu problema e o meu desafio: aprender a viver e a desfrutar dentro de mim. E a questão não é simples: hindus, chineses, japoneses, todos os que têm culturas milenares, dedicam boa parte do seu tempo a desenvolver filosofias e técnicas de vida interior. Mesmo assim, todo ano se suicidam no mundo uns tantos milhares de pessoas, esmagadas por sua própria solidão. E não é que o sujeito escolha ficar sozinho. É que, pouco a pouco, vai-se ficando sozinho. E não há remédio. É preciso resistir. Chega-se a uma imensa planície deserta e não se sabe que porra fazer. Muitas vezes se pensa que o melhor é não pensar muito em si mesmo e na maldita solidão, que fica mais aguda quando se está isolado e em silêncio. Bom, pois é preciso entrar em ação. E a gente sai por aí. Em busca de (...) Não sei."
"Em algumas ocasiões, era tão horrível para mim ir à repartição que eu chegava ao ponto de, muitas vezes, voltar doente do trabalho. Mas, de repente, sem mais nem menos, começava uma fase de ceticismo e indiferença (comigo tudo acontecia em fases), e eu mesmo começava a rir de minha intolerância e minhas aversões e censurava a mim mesmo pelo meu romantismo. Num determinado momento, não queria falar com ninguém; em outro, não só procurava conversa com alguém, como até mesmo decidia tornar-me seu amigo. De repente, sem mais nem menos, toda a aversão desaparecia. Quem sabe ela nunca tivesse existido realmente em mim, e fosse apenas pose tirada dos livros? Até agora não solucionei essa questão."
23.3.10
"do the elderly couples still kiss and hug and grab their big wrinkly skin... "
(...)
"in my dream you picked my leg, and made me so happy."
um dos filmes que mais me tocaram recentemente foi um curta de 30 minutos de um diretor que eu andava desacreditado.
quase que com pura precisão, vi um relance da maioria dos meus sonhos diários. e ao acordar, a subjetividade de Animal Collective. na primeira música que conheci deles.
19.3.10
sou feito da personalidade que escolhem que eu seja do que de fato sou.
quaisquer movimentos bruscos de aproximação,
a linguagem é dizimada e elas tornam-se mudas.
em uma incomunicável passagem entre o íntimo e o estranho,
transita-se um campo quase abstrato de nunca existir afirmações, apenas hipóteses.
o denominador em comum:
permaneço alheio e estranho.
(constantemente vago, porém menos inquieto)
15.3.10
"A arte consiste em fazer os outros sentir o que nós sentimos, em os libertar deles mesmos, propondo-lhes a nossa personalidade para especial libertação. O que sinto, na verdadeira substância com que o sinto, é absolutamente incomunicável; e quanto mais profundamente o sinto, tanto mais incomunicável é. Para que eu, pois, possa transmitir a outrem o que sinto, tenho que traduzir os meus sentimentos na linguagem dele, isto é, que dizer tais coisas como sendo as que eu sinto, que ele, lendo-as, sinta exatamente o que eu senti. E como este outrem é, por hipótese de arte, não esta ou aquela pessoa, mas toda a gente, isto é, aquela pessoa que é comum a todas as pessoas, o que, afinal, tenho que fazer é converter os meus sentimentos num sentimento humano típico, ainda que pervertendo a verdadeira natureza daquilo que senti.
Tudo quanto é abstrato é difícil de compreender, porque é difícil de conseguir para ele a atenção de quem o leia. Darei, por isso, um exemplo simples, em que as abstrações que formei se concretizarão. Suponha-se que, por um motivo qualquer, que pode ser o cansaço de fazer contas ou o tédio de não ter que fazer, cai sobre mim uma tristeza vaga da vida, uma angústia de mim que me perturba e inquieta. Se vou traduzir esta emoção por frases que de perto a cinjam, quanto mais de perto a cinjo, mais a dou como propriamente minha, menos, portanto, a comunico a outros. E, se não há comunicá-la a outros, é mais justo e mais fácil senti-la sem a escrever."
11.3.10
5.3.10
28.2.10
23.2.10
20.2.10
18.2.10
4.2.10
"Tudo parece que é ainda construção mas é ruína..."
cansaço demais deveria extravasar pelos poros, e tornar a pele líquida.
os tecidos também sucumbiriam, e restariam apenas a desolação dos ossos.
(que em tais momentos, sinto isto e não tenho a quem exprimir)
ou por apenas excesso de puro azar, ou que não nasci muito pra isto.
e sou impedido de uma certa normalidade em ter romances, e toda a beleza que sinto que acompanha. uma tal beleza que também extravasa os poros, mas que não é líquida, é sólida.
vou sendo consumindo por ilusões e a minha idade torna-se um símbolo do que eu deveria viver, e não vivo.
restam apenas as tais das noites insuportáveis: o único realismo que define um cotidiano entorpecido e desolado.
30.1.10
"There is no intensity of love or feeling that does not involve the risk of crippling hurt. It is a duty to take this risk, to love and feel without defense or reserve."
"All love is expansion, all selfishness is contraction. Love is therefore the only law of life. He who loves lives, he who is selfish is dying. Therefore love for love's sake, because it is law of life, just as you breathe to live."
nenhum abismo é alcançado sem riscos: o confrontamento das inseguranças, ansiedades e (mais) noites insones. sem abismos, restariam apenas avenidas e ruas planejadas, e a tal da solitude disforme.
há meses que não opto mais pelo isolamento, há meses a futura certeza de um amor novamente possível e duradouro.
(que o concreto primeiro surge na projeção e idéia que é feita de algo)
10.1.10
"A solidão desola-me, a companhia oprime-me. A presença de outra pessoa descaminha-me os pensamentos; sonho a sua presença com uma distracção especial, que toda a minha atenção analítica não consegue definir."
além da cruel constatação de que somos todos sozinhos, sendo a morte da consciência o maior exemplo disto, não acho assim tão plausível a tal da solidão plena e independente. em muitos casos, creio que há falsas personas, uma necessidade de mostrar-se independente perante o mundo. de pessoas que criticam os solitários angustiados, sendo que muitos dos que criticam também são gêmeos dos solitários angustiados. a diferença é que eles escolheram fazer uso do disfarce. ou da indiferença de si mesmos.
e mesmo com o entendimento do fato de que ninguém, ou nenhuma espécie de amante, preenche o relutante vazio (a ilusão dele ser preenchido é dizimado na fúria da adolescência), há angústia sim, em cotidiano sem romance, e sem companhia. sem pele alheia. e sem intimidade.
o maior exemplo vivo, na minha memória, foi a gradual perda da lucidez do meu avô, após a morte da minha avó. diferente dos que escrevem em blog ou que usam outros meios como forma de disfarce da angústia, ou da falta de alguém, meu avô clamava em alto e bom tom a ausência dela. pedia para que de algum modo ela o ouvisse. e todos da família ouviam e ficavam impotentes. sendo eu um deles. e ele acabou falecendo 4 anos depois, no mesmo mês do ano que ela havia falecido, e quase no mesmo dia.
(e desta vez, não fui cauteloso ao me expor. deixei bem nítido o que eu queria dizer. para os poucos que conhecem este blog, ou para os poucos que digitam o meu nome no google e o descobrem. ou para mim mesmo apenas.)
excesso de solidão desfigura a solitude em uma face mórbida.
as companhias são mutáveis e poucas vezes fixas.
sou desintegrado pela falta de companhia e de cúmplices, resultantes de um passado nômade e inerte, que são resultantes de escolhas mal feitas há cerca de dois anos atrás.
noites de final de semana tornam-se quase que insuportáveis em casa e quase que inabitáveis na rua. o novo sempre apresenta-se, porém nunca é alcançado.
sou feito de uma constante ilusão do que tais noites representam: a ilusão de algo ou alguém que dizime as tais das noites insuportáveis em casa.
24.12.09
"a vida deve descontinuar para que continuemos."
hábitos necessitam de quebras.
e teorias necessitam ser dizimadas ao hábito.
do constante abismo entre a prática e a tese, arrastei meses e dias e fui feito do saudosismo do que começou a ser feito virtualmente do meu nome no ano passado.
e me deparo com uma entrevista para uma revista espanhola e perguntas que me são alheias.
de uma época cujo resgate não vinga.
(certos fragmentos são inertes e incorporados)
“You put your camera around your neck along with putting on your shoes, and there it is, an appendage of the body that shares your life with you. The camera is an instrument that teaches people how to see without a camera."
"The thing that's important to know is that you never know. You're always sort of feeling your way."
17.12.09
"O cinema, mesmo aquele mais ideal e mais abstrato, permanece em sua essência concreto, permanece a arte do movimento, luz e cor. Quando deixamos preconceitos e os pré-condicionamentos de lado, nos abrimos para a concritude da experiência puramente visual e cinestésica, para o 'realismo' da luz e do movimento, para a pura experiência do olho, para a pura matéria do cinema."
16.12.09
7.12.09
"this fantasy is half surreal half real. i'm probably in the metro somewhere in eastern europe waiting around with exotic, quiet people when a street performer walks up to me and everything else closes out and he's telling me something, reminding me of something. of beauty of love of everyone of music of art of imagination. it's creepy and wonderful and touches on something very within myself, himself and everything around." (2795773490)
1.11.09
2.9.09
descoberto em uma andança de usuários do flickr:
"We stand in the middle of a transition where we can't remain standing... The new thing in us, the added thing, has entered into our heart, has gone into its inmost chamber and is not even there any more, is already in our blood... The future enters into us in this way in order to transform itself in us long before it happens."
"We stand in the middle of a transition where we can't remain standing... The new thing in us, the added thing, has entered into our heart, has gone into its inmost chamber and is not even there any more, is already in our blood... The future enters into us in this way in order to transform itself in us long before it happens."
19.8.09
"de qualquer viagem, ainda que pequena, regresso como um sono cheio de sonhos - uma confusão tórpida, com as sensações coladas uma às outras, bêbado do que vi."
(com mais viagens, sucessivas ou não, ocorreria a certeza de não pertencer a lugar algum. sem o incessante retorno à uma cidade alheia e íntima)
(com mais viagens, sucessivas ou não, ocorreria a certeza de não pertencer a lugar algum. sem o incessante retorno à uma cidade alheia e íntima)
15.8.09
28.7.09
24.7.09
23.7.09
9.7.09
5.7.09
20.6.09
19.6.09
"Deve ser por isso que fico (ficamos todos, acho) tão abalado quando, sem nenhuma preparação, ela acontece de repente. E então o espanto e o desamparo, a incompreensão também, invadem a suposta ordem inabalável do arrumado (e por isso mesmo 'eterno') cotidiano. (...) Porque o amor, como a morte, também existe - e da mesma forma, dissimulada. Por trás, inaparente. Mas tão poderoso que, da mesma forma que a morte - pois o amor também é uma espécie de morte (a morte da solidão, a morte do ego trancado, indivisível, furiosa e egoisticamente incomunicável) - nos desarma. O acontecer do amor e da morte desmascaram nossa patética fragilidade."
18.6.09
13.6.09
6.6.09
2.6.09
15.5.09
12.4.09
24.2.09
7.1.09
3.12.08
29.10.08
"A Festa da Menina Morta", de Nachtergaele
um dos melhores filmes brasileiros recentes.. a fotografia é um primor, .. não sabia de quem era, e me vinha na cabeça o Walter Carvalho. curioso saber que foi feito por Lula Carvalho, filho dele...
um filme que vai além do tipico regionalismo ou excesso de elementos "brasileiros". é um belo estudo sobre a cegueira da fé, a força dos elementos invisiveis sobre uma comunidade... um filme forte, pelos temos abordados e pelo poder das imagens..
e pelo visto, nasceu um grande diretor com este filme. não só um ator famoso q foi fazer filmes, alguém que realmente conhece cinema e sabe utilizar as suas influências.
um dos melhores filmes brasileiros recentes.. a fotografia é um primor, .. não sabia de quem era, e me vinha na cabeça o Walter Carvalho. curioso saber que foi feito por Lula Carvalho, filho dele...
um filme que vai além do tipico regionalismo ou excesso de elementos "brasileiros". é um belo estudo sobre a cegueira da fé, a força dos elementos invisiveis sobre uma comunidade... um filme forte, pelos temos abordados e pelo poder das imagens..
e pelo visto, nasceu um grande diretor com este filme. não só um ator famoso q foi fazer filmes, alguém que realmente conhece cinema e sabe utilizar as suas influências.
"24 city", de Zhang-ke
na linha de (e creio q superior) ao cinema do Eduardo Coutinho..
fotografia belissima, com cenas que exploraram bem a beleza da região (da natureza, das fábricas).. é uma espécie de falso documentário ou falsa ficção... um dos filmes menos pretenciosos entre os recentes que vi.. passa uma honestidade, quase que pura, pelos depoimentos dos entrevistados sobre a industrialização da região.. o último depoimento, da garota do "new beatle" (a foto q aparece na divulgação do filme) é extremamente emocionante, dá um valor e rumo muito maior para o filme; assim como da "Pequena Flor", sobre seus casos amorosos frustrados..
é um filme que sabe achar vida em um cenário tão inóspito e frio.
na linha de (e creio q superior) ao cinema do Eduardo Coutinho..
fotografia belissima, com cenas que exploraram bem a beleza da região (da natureza, das fábricas).. é uma espécie de falso documentário ou falsa ficção... um dos filmes menos pretenciosos entre os recentes que vi.. passa uma honestidade, quase que pura, pelos depoimentos dos entrevistados sobre a industrialização da região.. o último depoimento, da garota do "new beatle" (a foto q aparece na divulgação do filme) é extremamente emocionante, dá um valor e rumo muito maior para o filme; assim como da "Pequena Flor", sobre seus casos amorosos frustrados..
é um filme que sabe achar vida em um cenário tão inóspito e frio.
26.10.08
"Meu Winnipeg", de Maddin.
um dos melhores filmes que vi até agora... o diretor canadense Guy Maddin superando até o memoravel "a música mais triste do mundo"
este cineasta tem talento, e muito. talvez "o que falta" para ele é o nome dele ser mais conhecido, os filmes dele terem mais projeção... porque creio que ele é um dos cineastas que melhor sabe discutir e recriar linguagem no cinema atual.
o filme é uma mistura de biografia dele mesmo, misturado com uma análise minuciosa de vários aspectos da cidade onde ele foi criado (Winnipeg). no limiar do ser ficção ou ser documentário (e isso nem importa muito), o filme tem uma edição primorosa, fazendo lembrar a montagem do cinema soviético, em alguns momentos. e aliado ao constante estilo de recriação de cinema mudo que o Maddin faz em quase todos os seus filmes, é um belo filme "à margem" do que se vê na maioria dos filmes da Mostra: um filme que flui totalmente contra o excesso de realismo; é um filme que questiona o real e a si mesmo, o tempo inteiro.
um dos melhores filmes que vi até agora... o diretor canadense Guy Maddin superando até o memoravel "a música mais triste do mundo"
este cineasta tem talento, e muito. talvez "o que falta" para ele é o nome dele ser mais conhecido, os filmes dele terem mais projeção... porque creio que ele é um dos cineastas que melhor sabe discutir e recriar linguagem no cinema atual.
o filme é uma mistura de biografia dele mesmo, misturado com uma análise minuciosa de vários aspectos da cidade onde ele foi criado (Winnipeg). no limiar do ser ficção ou ser documentário (e isso nem importa muito), o filme tem uma edição primorosa, fazendo lembrar a montagem do cinema soviético, em alguns momentos. e aliado ao constante estilo de recriação de cinema mudo que o Maddin faz em quase todos os seus filmes, é um belo filme "à margem" do que se vê na maioria dos filmes da Mostra: um filme que flui totalmente contra o excesso de realismo; é um filme que questiona o real e a si mesmo, o tempo inteiro.
24.10.08
"Sinédoque, Nova Iorque", de Kaufman.
brilhante, meu preferido na mostra até agora..
li uma crítica que é um filme que tem a formula ideal e elementos para "sucesso cult".. enfim, isso é um ponto que acho irrelevante e que muitos criticos se perdem... é, antes de tudo, cinema autoral de alto nível, em meio ao main-stream de hollywood..
achei tão brilhante por ser o tipo de viagem ou loucura que flui o filme inteiro, sem interrupção. ou seja, a preocupação de lógica ou fatos se ligarem caem por terra, tendo bem menos coerência do que "brilho eterno..", por exemplo. (quanto mais ele viaja em loucuras q só ele entende, melhor...) o que sobra são as emoções e frustrações do dramaturgo lidando com a passagem do tempo, desgaste do seu corpo, aliado ao desejo de ser lembrando por sua obra; chegando no limite de que uma criação pode chegar e consumir um escritor.
e com uma das melhores atuações da carreira do Philip Seymour Hoffman, é extremamente superior a "be kind, rewind".
e espero que o Kaufman continue se "repetindo", se for o caso. porque, junto do David Lynch, é um dos melhores e mais autoriais cineasta/roterista, do atual cinema norte-americano. anos luz na frente de Tarantino, entre outros..
brilhante, meu preferido na mostra até agora..
li uma crítica que é um filme que tem a formula ideal e elementos para "sucesso cult".. enfim, isso é um ponto que acho irrelevante e que muitos criticos se perdem... é, antes de tudo, cinema autoral de alto nível, em meio ao main-stream de hollywood..
achei tão brilhante por ser o tipo de viagem ou loucura que flui o filme inteiro, sem interrupção. ou seja, a preocupação de lógica ou fatos se ligarem caem por terra, tendo bem menos coerência do que "brilho eterno..", por exemplo. (quanto mais ele viaja em loucuras q só ele entende, melhor...) o que sobra são as emoções e frustrações do dramaturgo lidando com a passagem do tempo, desgaste do seu corpo, aliado ao desejo de ser lembrando por sua obra; chegando no limite de que uma criação pode chegar e consumir um escritor.
e com uma das melhores atuações da carreira do Philip Seymour Hoffman, é extremamente superior a "be kind, rewind".
e espero que o Kaufman continue se "repetindo", se for o caso. porque, junto do David Lynch, é um dos melhores e mais autoriais cineasta/roterista, do atual cinema norte-americano. anos luz na frente de Tarantino, entre outros..
14.10.08
9.9.08
"Entre as muitas maneiras de se combater o nada, uma das melhores é tirar fotografias, atividade que deveria ser ensinada desde muito cedo às crianças, pois exige disciplina, educação estética, bom olho e dedos seguros. Não se trata de estar tocaiando a mentira como qualquer repórter, e agarrar a estúpida silhueta do personagem que sai do número 10 de Downing Street, mas seja como for quando se anda com a câmara tem-se o dever de estar atento, de não perder este brusco e delicioso rebote de um raio de sol numa velha pedra, ou a carreira, tranças ao vento, de uma menininha que volta com um pão ou uma garrafa de leite."
8.9.08
"I'm dead. No, that's too melodramatic. I'm not dead. But I live without self-respect. I know it sounds silly and pretentious. Most people live without self-esteem. Humiliated at heart, stifled, and spat upon. They're alive and that's all they know. They know of no alternative. Even if they did, they would never reach out for it. Can one be sick with humiliation? Is this a disease we have to live with? We talk so much about freedom. Isn't freedom a poison for the humiliated? Or is it merely a drug the humiliated use in order to endure? I can't live like this. I've given up. I can't stand it anymore. The days drag by. I'm choked by the food I swallow, the shit I get rid of, the words I say. The daylight screams at me every morning to get up. Sleep is only dreams that chase me. The darkness rustles with ghosts and memories. Has is ever occurred to you that the worse off people are, the less they complain? Finally, they're silent even if they're living creatures with nerves, eyes, and hands. Vast armies of victims and hangmen. The sun rises and falls, heavily. The cold approaches. The darkness. The heat. The smell. They're all silent. We can never leave. It's too late. Everything's too late."
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